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O equívoco de procurar um Salvador da Pátria



A cada eleição presidencial, uma parcela significativa dos brasileiros deposita suas esperanças em um único nome. Seja de direita, esquerda ou centro, o candidato da vez costuma ser apresentado por seus apoiadores como a solução para os problemas nacionais. Essa expectativa, porém, ignora uma realidade fundamental do sistema político brasileiro: nenhum presidente governa sozinho.

Nos últimos anos, consolidou-se no Brasil a ideia de que basta eleger o “candidato certo” para que a economia melhore, os serviços públicos funcionem e as reformas avancem. No entanto, a experiência tem mostrado exatamente o contrário. Presidentes de diferentes correntes ideológicas chegaram ao poder com promessas de transformação e encontraram os mesmos obstáculos estruturais para governar.

O principal deles está no Congresso Nacional.

Embora o Brasil seja oficialmente uma República Presidencialista, na prática o poder está cada vez mais compartilhado com um Congresso fortalecido. O chamado Centrão, grupo formado por partidos e lideranças sem alinhamento ideológico rígido, tornou-se peça fundamental para a aprovação de projetos, distribuição de recursos e sustentação política de qualquer governo.

Isso significa que, independentemente de quem seja eleito presidente, será necessário negociar permanentemente com deputados e senadores para garantir governabilidade. Sem maioria parlamentar, projetos importantes ficam paralisados, reformas são modificadas ou abandonadas e o Executivo perde capacidade de implementar seu programa de governo.

Essa realidade ajuda a explicar por que tantos presidentes chegam ao cargo prometendo mudanças profundas e acabam entregando resultados muito diferentes do que anunciaram durante a campanha. Não se trata apenas de competência ou incompetência individual. Trata-se de um sistema político em que o Congresso possui enorme capacidade de influenciar, limitar e até determinar os rumos do governo.

O eleitor brasileiro, entretanto, continua concentrando quase toda a sua atenção na disputa presidencial. Debates, pesquisas e campanhas giram em torno dos candidatos ao Palácio do Planalto, enquanto as eleições para deputado federal e senador recebem muito menos interesse da população. O resultado é uma contradição: cobra-se do presidente soluções que dependem, em grande medida, das decisões tomadas pelo Congresso.

Por isso, é um erro acreditar que qualquer candidato, por mais preparado que seja, conseguirá transformar o país sozinho. Nomes qualificados podem representar alternativas importantes e trazer novas ideias para a administração pública. Contudo, sem uma base parlamentar consistente e sem mudanças na composição do Congresso, suas possibilidades de ação serão inevitavelmente limitadas.

O debate político brasileiro precisa amadurecer. Em vez de buscar constantemente um novo “salvador da pátria”, o eleitor deveria olhar com mais atenção para o conjunto do sistema político. A escolha de deputados e senadores é tão importante quanto a escolha do presidente. Afinal, são eles que aprovam leis, controlam o orçamento e exercem influência decisiva sobre o funcionamento do governo.

Se o Brasil deseja mudanças reais, talvez a primeira delas seja na forma como o eleitor enxerga a política. O futuro do país não depende apenas de quem ocupa a cadeira presidencial, mas também de quem controla as cadeiras do Congresso Nacional.

*Jamesson Araújo é jornalista, editor do Agravo e integrante do podcast Super Blogs.

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