
Por Jamesson Araújo
Vou te contar uma coisa sobre as pesquisas eleitorais que as grandes redes de comunicação parecem não querer discutir quando o assunto é a eleição presidencial de 2026.
Todos os dias, jornais, emissoras de televisão, portais de internet e comentaristas políticos gastam horas analisando cenários de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. A impressão passada ao público é que a eleição obrigatoriamente terá uma segunda etapa. Mas existe uma pergunta simples que quase ninguém faz: e se não houver segundo turno?
Segundo a pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (12), Lula continua liderando a corrida presidencial. Mais do que isso. Quando analisamos os números por região e os projetamos sobre o tamanho do eleitorado brasileiro, chegamos a uma estimativa de vantagem superior a 13 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro.
Esse dado praticamente desaparece da cobertura política nacional.
Muitos leitores me perguntam por que insisto tanto em analisar o primeiro turno. A resposta é simples: para existir segundo turno, primeiro precisa haver o primeiro turno. O primeiro turno é uma realidade concreta. Já o segundo turno é apenas uma possibilidade, que dependerá do resultado produzido pelos eleitores na primeira votação.
Hoje, pelos números divulgados pelo próprio Datafolha, Lula estaria próximo de 44% a 45% dos votos válidos. Isso significa que faltariam aproximadamente cinco pontos percentuais para alcançar os 50% mais um necessários para vencer a eleição já no primeiro turno.
É uma distância relevante, mas longe de ser impossível de superar.
Outro aspecto que costuma ser ignorado é que pesquisa eleitoral não é resultado de eleição. Pesquisa é uma fotografia de determinado momento da campanha.
Basta lembrar o que ocorreu em 2022. Alguns institutos chegaram perto do resultado final, mas outros registraram diferenças significativas entre os números divulgados e os votos efetivamente apurados. Em alguns casos, a diferença chegou a cerca de seis pontos percentuais. Em outros levantamentos, os erros ultrapassaram a casa dos dez pontos. Isso não significa que as pesquisas não tenham valor. Significa apenas que elas não devem ser tratadas como previsão definitiva das urnas.
A experiência recente mostra que movimentos importantes podem ocorrer nas últimas semanas de campanha. O voto útil, os debates, a mobilização partidária e os acontecimentos políticos têm capacidade de alterar o cenário desenhado pelas pesquisas.
E é justamente aí que mora uma das maiores contradições da cobertura eleitoral atual. Quando Lula permanece estável dentro da margem de erro, dizem que ele está estagnado. Quando Flávio Bolsonaro oscila positivamente dentro da mesma margem, surgem análises apontando crescimento. A matemática eleitoral, porém, não funciona pela torcida dos comentaristas.
Outra questão que chama atenção na disputa de 2026 é a importância estratégica das regiões brasileiras. Assim como o Nordeste representa a principal fortaleza eleitoral de Lula, o Sul continua sendo o principal reduto de Flávio Bolsonaro. Existe, porém, uma diferença fundamental entre as duas regiões: o Nordeste possui um eleitorado significativamente maior.
Enquanto o Nordeste reúne cerca de 43 milhões de eleitores, o Sul possui pouco mais de 22 milhões. Em outras palavras, a vantagem que Lula constrói no Nordeste tem um peso eleitoral muito superior ao da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no Sul.
É justamente por isso que o Sudeste surge como o grande pêndulo da eleição. Os números mais recentes mostram Flávio Bolsonaro à frente em São Paulo e no Rio de Janeiro, enquanto Minas Gerais aparece em empate técnico. Como o Sudeste concentra o maior eleitorado do país, qualquer mudança nessa região pode redefinir o resultado nacional.
No Nordeste, os números atuais apontam Lula com cerca de 53% contra 22% de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, acredito que esse percentual pode estar subestimado.
Tenho dito repetidamente no Podcast Super Blogs que não me surpreenderia ver Lula ultrapassar os 60% na região até o dia da votação. Principalmente porque 2026 apresenta uma diferença importante em relação a 2022. Na eleição passada, Lula dividia votos no campo progressista com candidaturas como Simone Tebet e Ciro Gomes. Hoje, esse cenário praticamente não existe. Lula disputa quase sozinho o eleitorado da esquerda e boa parte do centro progressista.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro demonstra possuir uma característica semelhante à observada em Jair Bolsonaro: uma base eleitoral fiel e consolidada. O problema para sua candidatura não está nesse núcleo duro, mas no eleitorado flutuante, aquele que decide eleições e costuma ser mais sensível aos acontecimentos da campanha.
Nos últimos meses, Flávio viu seu nome associado a uma série de controvérsias que dominaram o debate político. Talvez isso não afete seus apoiadores mais fiéis, mas pode dificultar sua expansão entre os indecisos e moderados.
Por isso, considero precipitado tratar o segundo turno como algo inevitável. Isso não significa afirmar que Lula vencerá a eleição já na primeira rodada. Significa reconhecer que essa possibilidade existe, possui fundamento matemático e encontra respaldo nos números disponíveis hoje.
A história das eleições brasileiras mostra que as urnas nem sempre confirmam integralmente as narrativas construídas nos estúdios de televisão ou nas pesquisas da reta final. Foi assim em outras disputas e pode voltar a acontecer.
Por isso, antes de discutir quem venceria um eventual segundo turno, talvez seja mais prudente observar com atenção o que está acontecendo no primeiro.
Porque a eleição de 2026 pode terminar antes do que muita gente imagina.
Obs.: A estimativa de vantagem superior a 13 milhões de votos é uma projeção baseada na distribuição regional do eleitorado brasileiro e nos percentuais divulgados pela pesquisa Datafolha, não um dado em votos divulgado pelo instituto.
Jamesson Araújo é jornalista, analista político e apresentador do Podcast Super Blogs.








