{"id":40204,"date":"2026-08-28T14:32:45","date_gmt":"2026-08-28T17:32:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.agravo.blog.br\/blog\/?p=40204"},"modified":"2026-08-28T14:32:45","modified_gmt":"2026-08-28T17:32:45","slug":"o-equivoco-de-procurar-um-salvador-da-patria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.agravo.blog.br\/blog\/2026\/08\/28\/o-equivoco-de-procurar-um-salvador-da-patria\/","title":{"rendered":"O equ\u00edvoco de procurar um Salvador da P\u00e1tria"},"content":{"rendered":"<p>A cada elei\u00e7\u00e3o presidencial, uma parcela significativa dos brasileiros deposita suas esperan\u00e7as em um \u00fanico nome. Seja de direita, esquerda ou centro, o candidato da vez costuma ser apresentado por seus apoiadores como a solu\u00e7\u00e3o para os problemas nacionais. Essa expectativa, por\u00e9m, ignora uma realidade fundamental do sistema pol\u00edtico brasileiro: nenhum presidente governa sozinho.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, consolidou-se no Brasil a ideia de que basta eleger o \u201ccandidato certo\u201d para que a economia melhore, os servi\u00e7os p\u00fablicos funcionem e as reformas avancem. No entanto, a experi\u00eancia tem mostrado exatamente o contr\u00e1rio. Presidentes de diferentes correntes ideol\u00f3gicas chegaram ao poder com promessas de transforma\u00e7\u00e3o e encontraram os mesmos obst\u00e1culos estruturais para governar.<\/p>\n<p>O principal deles est\u00e1 no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Embora o Brasil seja oficialmente uma Rep\u00fablica Presidencialista, na pr\u00e1tica o poder est\u00e1 cada vez mais compartilhado com um Congresso fortalecido. O chamado Centr\u00e3o, grupo formado por partidos e lideran\u00e7as sem alinhamento ideol\u00f3gico r\u00edgido, tornou-se pe\u00e7a fundamental para a aprova\u00e7\u00e3o de projetos, distribui\u00e7\u00e3o de recursos e sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de qualquer governo.<\/p>\n<p>Isso significa que, independentemente de quem seja eleito presidente, ser\u00e1 necess\u00e1rio negociar permanentemente com deputados e senadores para garantir governabilidade. Sem maioria parlamentar, projetos importantes ficam paralisados, reformas s\u00e3o modificadas ou abandonadas e o Executivo perde capacidade de implementar seu programa de governo.<\/p>\n<p>Essa realidade ajuda a explicar por que tantos presidentes chegam ao cargo prometendo mudan\u00e7as profundas e acabam entregando resultados muito diferentes do que anunciaram durante a campanha. N\u00e3o se trata apenas de compet\u00eancia ou incompet\u00eancia individual. Trata-se de um sistema pol\u00edtico em que o Congresso possui enorme capacidade de influenciar, limitar e at\u00e9 determinar os rumos do governo.<\/p>\n<p>O eleitor brasileiro, entretanto, continua concentrando quase toda a sua aten\u00e7\u00e3o na disputa presidencial. Debates, pesquisas e campanhas giram em torno dos candidatos ao Pal\u00e1cio do Planalto, enquanto as elei\u00e7\u00f5es para deputado federal e senador recebem muito menos interesse da popula\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o: cobra-se do presidente solu\u00e7\u00f5es que dependem, em grande medida, das decis\u00f5es tomadas pelo Congresso.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 um erro acreditar que qualquer candidato, por mais preparado que seja, conseguir\u00e1 transformar o pa\u00eds sozinho. Nomes qualificados podem representar alternativas importantes e trazer novas ideias para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Contudo, sem uma base parlamentar consistente e sem mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o do Congresso, suas possibilidades de a\u00e7\u00e3o ser\u00e3o inevitavelmente limitadas.<\/p>\n<p>O debate pol\u00edtico brasileiro precisa amadurecer. Em vez de buscar constantemente um novo \u201csalvador da p\u00e1tria\u201d, o eleitor deveria olhar com mais aten\u00e7\u00e3o para o conjunto do sistema pol\u00edtico. A escolha de deputados e senadores \u00e9 t\u00e3o importante quanto a escolha do presidente. Afinal, s\u00e3o eles que aprovam leis, controlam o or\u00e7amento e exercem influ\u00eancia decisiva sobre o funcionamento do governo.<\/p>\n<p>Se o Brasil deseja mudan\u00e7as reais, talvez a primeira delas seja na forma como o eleitor enxerga a pol\u00edtica. O futuro do pa\u00eds n\u00e3o depende apenas de quem ocupa a cadeira presidencial, mas tamb\u00e9m de quem controla as cadeiras do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>*<strong>Jamesson Ara\u00fajo \u00e9 jornalista, editor do Agravo e integrante do podcast Super Blogs.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada elei\u00e7\u00e3o presidencial, uma parcela significativa dos brasileiros deposita suas esperan\u00e7as em um \u00fanico nome. Seja de direita, esquerda ou centro, o candidato da vez costuma ser apresentado por seus apoiadores como a solu\u00e7\u00e3o para os problemas nacionais. Essa expectativa, por\u00e9m, ignora uma realidade fundamental do sistema pol\u00edtico brasileiro: nenhum presidente governa sozinho. 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