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Ilhéus e a causa animal: até quando a cidade vai apenas reagir às tragédias?



Escrevo esta nota para manifestar publicamente minha indignação diante de uma realidade que venho acompanhando de perto em relação à causa animal em Ilhéus.

Patrícia Vitória Mendes dos Santos Araujo

Não são casos isolados. São situações que se repetem: abandono, maus-tratos,  animais em situação de risco e protetores e organizações sobrecarregados, tentando, muitas vezes, preencher lacunas que deveriam ser enfrentadas também por meio de políticas públicas.

Cavalos em situação de risco: o caso do Residencial Vilela

Em julho deste ano, o Info Ilhéus, por meio da reportagem “Ilhéus Precisa Avançar na Causa Animal”, já havia chamado atenção para a necessidade de o município avançar nas políticas de proteção e  bem-estar animal, inclusive diante de situações envolvendo animais de grande porte.

Agora, novamente, o problema volta a aparecer.

Reportagem publicada pelo Fábio Roberto Notícias, em 26 de agosto, mostrou a preocupação de moradores do Residencial Vilela com a presença de vários cavalos, além de cães e gatos, circulando pelas áreas de uso comum, mexendo no lixo, pastando e fazendo suas necessidades.

A comunidade pediu providências diante dos riscos para os próprios animais, para os moradores e para a saúde pública.

Mas o Vilela não deve ser tratado como um episódio isolado.

Animais de grande porte continuam sendo vistos em diferentes pontos de Ilhéus. E o próprio histórico recente da cidade já registra situações ainda mais graves, inclusive envolvendo cavalos encontrados em condições de extrema vulnerabilidade, privados de água, alimentação e cuidados, até que a situação terminasse em morte — casos que também foram levados ao conhecimento público pelo Info Ilhéus.

Diante disso, a pergunta permanece: até quando?

Quantos acidentes ainda serão necessários? Quantos animais precisarão ser atropelados, feridos ou morrer para que a prevenção seja tratada como prioridade?

Não basta agir depois da denúncia. Não basta agir depois do acidente.

A proteção precisa começar antes da tragédia.

Maus-tratos não podem ser normalizados

Outro caso que não pode ser esquecido é o de um cão que sofreu uma violência brutal e teve o rabo cortado com um facão.
Não se trata simplesmente de mais um resgate. Trata-se de uma vida submetida à crueldade.

Animais não conseguem denunciar, pedir socorro ou contar o que sofreram. Dependem de alguém que enxergue, denuncie e busque ajuda.

Casos como esse mostram por que a proteção animal precisa envolver não apenas resgates emergenciais, mas também prevenção, fiscalização, responsabilização e uma rede estruturada de atendimento.

A crueldade não pode ser naturalizada.

Quem protege também está cansado

Existe ainda outra parte dessa realidade que precisa ser lembrada: quem protege também tem limite.

Protetores e voluntários alimentam animais, acolhem, resgatam, procuram atendimento veterinário, compram medicamentos, pagam despesas e mobilizam outras pessoas para conseguir ajuda.

Muitas vezes, fazem isso com recursos próprios e enfrentando dificuldades pessoais.

O problema é que a quantidade de animais em situação de abandono e sofrimento não para de crescer.

Para cada animal resgatado, existe outro esperando. Para cada conta paga, surge outra. Para cada pedido de ajuda, aparece uma nova emergência.

Muitos protetores estão exaustos — física, emocional e financeiramente.

Não é justo que pessoas que decidiram proteger vidas tenham de carregar praticamente sozinhas uma responsabilidade que também precisa ser enfrentada como política pública.

ONGs e protetores são fundamentais, mas não podem ser a única barreira entre o abandono e a morte.

E agora, em ano eleitoral: onde está a causa animal?

É justamente neste momento que precisamos falar de política.

Estamos em ano eleitoral. Candidatos já estiveram em Ilhéus. Outros ainda virão.

Eles vão visitar a cidade, conversar com lideranças, participar de eventos e apresentar suas propostas.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: a causa animal está na agenda desses candidatos?

Não basta dizer que gosta de animais. Não basta fazer uma fotografia. Não basta publicar uma mensagem nas redes sociais.

O eleitor precisa perguntar: qual é a proposta? Qual é a meta? Qual é o orçamento? Qual é o cronograma? Qual é o compromisso?
Existe uma ferramenta importante para ajudar a qualificar esse debate: a Carta-Compromisso pela Proteção, Bem-estar, Conservação e Direitos dos  Animais — Eleições 2026, construída por organizações da sociedade civil no âmbito do Grupo de Trabalho dos Animais da Frente Parlamentar Ambientalista.

A Carta reúne compromissos relacionados ao enfrentamento dos maus-tratos e da impunidade, à criação e ao fortalecimento de políticas públicas, à governança, ao orçamento, à participação social e ao fortalecimento das organizações que atuam na proteção animal.

Por isso, uma pergunta precisa ser feita aos candidatos que já passaram por Ilhéus e aos que ainda virão:

Você conhece a Carta-Compromisso?

Você já assinou?

Qual é o seu compromisso concreto com a causa animal?

Antes de apertar “confirma”, pesquise

Essa responsabilidade também é do eleitor.

Antes de votar, é fundamental pesquisar quem são os candidatos, suas propostas, sua trajetória e seus compromissos.

O eleitor pode consultar informações oficiais sobre candidaturas e contas eleitorais no DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral, além de acompanhar a atuação parlamentar nos portais oficiais das Casas Legislativas.

É possível verificar propostas, projetos apresentados, atuação em comissões, votações e posicionamentos.

Pesquise. Compare. Cobre.

Não vote apenas pelo discurso.

Procure saber quem realmente apresenta propostas para a causa animal, quem assumiu compromissos e quem está disposto a transformar uma pauta muitas vezes tratada como secundária em política pública.

Animaisde estimação e animais selvagens
Porque os candidatos passam por Ilhéus.

As eleições passam.

Os palanques são desmontados.

Mas os  animais continuam aqui.

Continuarão nas ruas, precisando de castração, atendimento veterinário, fiscalização, proteção e políticas públicas.

Os animais não votam. Mas nós votamos.

Essa talvez seja a principal reflexão que precisamos levar para esta eleição.

Os animais não apertam o botão “confirma”. Nós apertamos.

E, antes de confirmar, precisamos perguntar:

O que esse candidato já fez pela causa animal?

O que ele pretende fazer?

A causa animal está realmente entre suas prioridades?

Ele assumiu algum compromisso concreto?

Porque não basta aparecer durante a eleição.

É preciso saber quem continuará defendendo essa pauta quando as câmeras forem embora, os eventos terminarem e os palanques forem desmontados.

Minha manifestação, portanto, permanece:

Não aceito a normalização da crueldade.

Não aceito que a proteção animal seja tratada como pauta secundária.

Não aceito que protetores e ONGs continuem enxugando gelo.

Ilhéus precisa avançar.

Precisa prevenir, fiscalizar, castrar, responsabilizar, investir e proteger.

E precisa, principalmente, que seus representantes assumam compromissos verdadeiros com a causa animal.

Animaisde estimação e animais selvagens
Eleição passa. Mandato passa. Promessa passa.

Mas os animais continuam aqui.

E continuarão precisando de proteção.

Patrícia Vitória Mendes dos Santos Araújo
Em defesa da causa animal de Ilhéus

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