
Após ataques preconceituosos nas redes sociais, turistas nordestinos reagem com cancelamentos de viagens para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Na Serra Gaúcha, destinos como Gramado e Canela estão entre os exemplos da preocupação de profissionais do turismo.
O resultado das eleições presidenciais de 2026 voltou a expor um problema antigo no Brasil: a xenofobia contra nordestinos. Assim como ocorreu em 2022, manifestações preconceituosas contra a população da região ganharam força nas redes sociais após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Desta vez, eleitores e influenciadores identificados com o bolsonarismo passaram a anunciar boicotes ao turismo nordestino. Em publicações, alguns afirmaram que deixariam de visitar estados da região, enquanto outros fizeram comentários depreciativos sobre a condição econômica do Nordeste.
A reação também chegou ao turismo. Nordestinos começaram a manifestar o cancelamento de viagens programadas para a Região Sul, principalmente para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Entre os destinos mais conhecidos estão Gramado e Canela, na Serra Gaúcha, dois importantes polos turísticos gaúchos.
Cancelamentos preocupam trabalhadores do turismo
Relatos de profissionais do setor apontam cancelamentos de reservas e viagens de turistas nordestinos, provocando preocupação entre empresários e trabalhadores que dependem do fluxo de visitantes de outras regiões.
Diante da repercussão, profissionais do turismo do próprio Sul começaram a publicar vídeos e mensagens direcionados aos nordestinos. Nas gravações, trabalhadores e empresários afirmam que os visitantes são bem-vindos e pedem que a população não confunda as manifestações preconceituosas de determinados grupos com o pensamento de todos os moradores da região.
A preocupação tem fundamento econômico: o turismo depende da circulação de pessoas, e a perda de visitantes pode atingir hotéis, restaurantes, agências, transportadoras, comerciantes e pequenos empreendedores.
Nordeste movimenta R$ 1,5 trilhão em consumo e projeta PIB de R$ 2 trilhões em 2027
As manifestações que tentam desqualificar economicamente o Nordeste ignoram a dimensão do mercado consumidor regional.
Em 2025, a economia nordestina alcançou aproximadamente R$ 1,76 trilhão em Produto Interno Bruto (PIB), segundo estimativa do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), vinculado ao Banco do Nordeste. A projeção é que a economia regional ultrapasse R$ 2 trilhões em 2027.
O potencial de consumo também impressiona. Segundo levantamento da consultoria IPC Maps, as famílias nordestinas movimentaram aproximadamente R$ 1,515 trilhão em consumo em 2025, o equivalente a 18,59% do mercado consumidor nacional.
Com esse resultado, o Nordeste retomou a segunda posição entre os maiores mercados consumidores do Brasil, superando a região Sul, que representou 18,51% do consumo nacional.
Os números mostram a dimensão econômica da região e sua importância para a economia brasileira. Além de um mercado consumidor expressivo, o Nordeste possui um setor turístico estratégico, responsável pela geração de empregos e renda em seus nove estados.
A relação econômica entre as regiões é uma via de mão dupla: assim como turistas do Sul visitam as praias e cidades nordestinas, milhões de brasileiros também viajam para conhecer destinos sulistas, movimentando suas economias.
Fornatur repudia manifestações xenofóbicas
A repercussão dos ataques também chegou às entidades do setor turístico.
O Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo (Fornatur) divulgou manifestação pública de repúdio aos ataques preconceituosos contra o Nordeste após o resultado das eleições.
A entidade criticou declarações de influenciadores que anunciaram o cancelamento de viagens à região e alertou para os impactos da intolerância sobre profissionais, empreendedores e famílias que dependem da atividade turística.
O posicionamento reforça a importância de preservar o turismo como instrumento de integração nacional, independentemente das diferenças políticas entre visitantes e comunidades que os recebem.
Violência política amplia preocupação após as eleições
A xenofobia contra nordestinos ocorre em um cenário mais amplo de tensão política no país.
Em 28 de outubro, o governo federal divulgou um balanço de 45 ocorrências de violência política registradas entre os dias 24 e 28 de outubro, com 47 vítimas e dez mortes. Entre os episódios foram contabilizados atropelamentos intencionais, agressões físicas, esfaqueamentos e ataques com armas de fogo.
Os casos estão sob apuração das autoridades e ampliam o debate sobre os riscos de transformar divergências eleitorais em perseguição, discriminação e violência.
Brasil precisa de união, não de divisão
A onda de manifestações xenofóbicas também alimenta discussões nas redes sociais sobre uma possível separação territorial do país, com propostas de criação de novos países no Nordeste e no Sul.
O Brasil é uma nação continental, formada por diferentes culturas, sotaques, histórias e realidades econômicas. Suas regiões possuem desafios próprios, mas também dependem umas das outras para movimentar a economia, gerar empregos e fortalecer o desenvolvimento nacional.
Transformar o resultado de uma eleição em motivo para discriminar uma população inteira significa atingir pessoas que não têm qualquer responsabilidade pelas escolhas políticas dos outros.
A democracia pressupõe respeito à diversidade e ao direito de cada cidadão escolher seus representantes. Retaliações motivadas por diferenças políticas podem prejudicar trabalhadores, empresários e consumidores de todas as regiões.
O Brasil não precisa de mais divisões. Precisa de respeito, diálogo e compreensão de que a força do país está justamente na união de seu povo.













