
Presidente da entidade, João Galassi, relaciona alta nas vendas de alimentos à redução das transações via Pix após restrições às apostas on-line; dados indicam avanço de 6,5% na primeira semana analisada.
O consumo de alimentos nos lares brasileiros apresentou crescimento nas semanas seguintes às restrições às apostas on-line, segundo levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS). A entidade relaciona o avanço à redução das movimentações financeiras associadas às bets e avalia que mais recursos podem estar sendo direcionados às necessidades das famílias.
Os dados foram apresentados pelo presidente da ABRAS, João Galassi, durante a feira Supervendas, em Aracaju, e apontam crescimento do varejo alimentar em todas as regiões analisadas.
Na semana de 5 a 11 de outubro de 2026, as vendas do setor registraram alta de 6,5% em relação ao mesmo período de 2025. Na semana seguinte, entre 12 e 18 de outubro, o crescimento foi de 6,3% no Brasil.
Em entrevista, Galassi destacou que o avanço foi observado em diferentes formatos de comércio, dos grandes supermercados aos pequenos estabelecimentos de bairro.
“Em todos os modelos que nós temos de negócio, ou seja, atacarejo, supermercado, loja de vizinhança, todos os canais, você teve aumento de consumo”, afirmou o presidente da entidade.
Arroz, óleo, macarrão e café entre os produtos procurados
Segundo a ABRAS, o levantamento identificou maior procura por produtos essenciais, como arroz, óleo, macarrão e café. A associação afirma que o resultado representa aumento nas compras realizadas pelas famílias em diferentes canais do varejo alimentar.
A entidade também destaca a importância de distinguir o volume de mercadorias comercializadas do faturamento em reais. Segundo Galassi, a pesquisa considera o volume de alimentos comprado pelos consumidores.
Entretanto, a metodologia detalhada do levantamento semanal não foi disponibilizada publicamente junto às informações divulgadas, o que limita a verificação independente desse indicador.
Nordeste registra crescimento de 6,5%
O Nordeste acompanhou a expansão do consumo nacional na primeira semana analisada, com alta de 6,5% entre 5 e 11 de outubro, na comparação anual. Na semana seguinte, o crescimento regional foi de 4,5%.
Na primeira semana, Sul e a área que reúne Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro registraram as maiores altas regionais, ambas de 10,6%.
Na segunda semana, o Sul continuou na liderança, com crescimento de 9%, enquanto a região de Minas Gerais, Espírito Santo e interior fluminense avançou 7,1%.
Os números mostram que o avanço das compras foi disseminado geograficamente, embora com intensidades diferentes entre as regiões.
O que diz João Galassi sobre as transações via Pix
Ao explicar a interpretação da entidade, Galassi citou dados atribuídos ao Banco Central sobre as movimentações via Pix.
Segundo a ABRAS, o número de transações teria caído aproximadamente 10% imediatamente após as restrições às apostas e, posteriormente, a redução teria ficado em torno de 7%.
Para o presidente, a coincidência entre a diminuição das transações e o crescimento das compras de alimentos sugere uma possível mudança na destinação dos recursos das famílias.
A hipótese defendida pela entidade é que parte do dinheiro anteriormente utilizado em apostas esteja sendo direcionada ao consumo doméstico.
No entanto, a queda nas transações via Pix, isoladamente, não comprova que os valores deixaram de ser gastos com apostas e passaram a ser utilizados nos supermercados. Para demonstrar essa relação, seria necessário conhecer a origem das transações, a metodologia dos levantamentos e outros fatores que afetam o orçamento familiar.
Setor supermercadista movimenta mais de R$ 1 trilhão
Durante a entrevista, Galassi também destacou a dimensão econômica do varejo alimentar brasileiro.
Segundo números apresentados pelo dirigente, o setor reúne aproximadamente 424 mil lojas e responde por cerca de 9 milhões de empregos diretos e indiretos. O faturamento anual movimentado pelo segmento é estimado em mais de R$ 1 trilhão.
A capilaridade dos supermercados, atacarejos e pequenos mercados faz do setor uma parte importante da economia brasileira, tanto pelo abastecimento das famílias quanto pela geração de empregos e pela circulação de renda nos municípios.
Consumo maior não significa causa comprovada
Os resultados divulgados pela ABRAS mostram crescimento das vendas nas semanas analisadas. A interpretação de que as restrições às bets contribuíram para esse desempenho, porém, deve ser tratada como uma avaliação da entidade, e não como uma relação causal já comprovada.
Emprego, renda, preços dos alimentos, benefícios sociais, sazonalidade e mudanças no comportamento de compra também podem influenciar o consumo. Além disso, a queda no número de transações financeiras não permite concluir, por si só, que houve transferência equivalente de recursos para o varejo alimentar.
Ainda assim, o levantamento coloca em evidência um tema relevante para a economia doméstica: como o destino dos recursos das famílias influencia as compras de produtos essenciais e o desempenho do comércio brasileiro.
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