Um dos discursos da extrema direita que está na boca do povo e que a esquerda ainda não detectou

Por Jamesson Araújo
O resultado do primeiro turno de 2026 acendeu um alerta na esquerda. Lula venceu nos nove estados do Nordeste, mas perdeu cerca de 260 mil votos em relação a 2022. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro teve aproximadamente 1,61 milhão de votos a mais que Jair Bolsonaro havia obtido na região.
Mais do que os números, existe uma mudança no discurso político que precisa ser compreendida.
A extrema direita conseguiu nacionalizar e transformar um programa social em uma narrativa sobre dependência.
A extrema direita conseguiu espalhar uma narrativa simples: o Brasil trabalha para sustentar o Nordeste por meio do Bolsa Família e de outros programas sociais.
Esse discurso ganhou força nas redes sociais, entre influenciadores e setores da mídia. E produziu algo ainda mais preocupante: xenofobia contra nordestinos e a percepção, em parte do eleitorado do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, de que os benefícios sociais deveriam ser reduzidos ou até extintos. Isso gerou um das grandes criticas a Lula, entitulado pela extrema direita como “Explorador da pobreza”.
Cada voto dado à esquerda no Nordeste é visto como motivo de rebeldia no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
É aí que a esquerda precisa reagir.
Existe pobreza no Nordeste? Sim. Mas também existe redução da pobreza, crescimento do emprego e da renda e uma geração de jovens com maior acesso à educação e ao ensino superior.
E existe uma economia que a narrativa da extrema direita simplesmente ignora proporsitalmente.
O PIB do Nordeste foi estimado em R$ 1,76 trilhão em 2025, segundo o Etene/BNB, e a região movimentou aproximadamente R$ 1,5 trilhão em consumo no mesmo ano. Esses dados em nenhum momento foi abordado por Lula em seus discursos.
O Nordeste também é hoje o principal polo brasileiro de energia eólica e solar e recebe investimentos em hidrogênio verde, BYD, data centers, novas fábricas, Porto Sul, Fiol, agricultura, infraestrutura hídrica e outros projetos bilionários.
Portanto, falta à coordenação da campanha de Lula fazer uma explicação didática sobre essa realidade.
É preciso mostrar que o Bolsa Família não é a economia do Nordeste. Ele é uma política de proteção social dentro de uma região que produz, trabalha, consome, gera energia, produz alimentos e está atraindo novos investimentos.
A referência de que o Bolsa Família representa cerca de 4,5% da economia nordestina precisa ser contextualizada conforme a metodologia e o período do estudo, mas o ponto político permanece: o programa está muito longe de explicar sozinho o tamanho da economia regional.
A esquerda precisa fazer o contrário: transformar os números da redução da pobreza, do emprego, da renda, da educação e dos investimentos em uma narrativa sobre desenvolvimento.
Neste segundo turno, a campanha de Lula precisa dar essa aula ao eleitor — e também à própria militância.
É que a extrema direita conseguiu construir uma narrativa sobre o Nordeste que a esquerda ainda não conseguiu desmontar.
- Jamesson Araújo é jornalista, analista político e editor-chefe do Podcast Super Blogs e do site Agravo.












